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O Incidente na Passagem Dyatlov








A história como é contata parece algo saído de um filme de horror: dez estudantes saem para um passeio no campo, pretendem esquiar e se divertir durante um feriado. Eles seguem para os Montes Urais, na Rússia e nunca mais são vistos com vida.
Eventualmente seus corpos são encontrados – cinco deles congelados até a morte perto da tenda, quatro outros vítimas de misteriosos ferimentos – um crânio arrebentado, uma língua arrancada – enterrados a uma alguma distância do acampamento. Tudo leva a crer que eles tentavam fugir do lugar em desespero no meio da noite. Deixaram para trás esquis, comida e roupas quentes, se embrenharam em uma floresta escura, coberta de neve, mesmo sabendo que não teriam chance de sobreviver em um ambiente inóspito cuja temperatura beirava –30º C.
Na época, os investigadores perplexos com a descoberta não foram capazes de oferecer uma explicação para o que aconteceu com o grupo, e afirmaram que eles morreram vítimas de uma “força desconhecida que os compeliu de alguma forma à loucura”. O caso foi então encerrado pelas autoridades soviéticas e por muitos anos foi arquivado como “Ultra-Secreto”.
Após meio século, o mistério continua sem solução. Qual a natureza dessa “força desconhecida” capaz de matar nove jovens com experiência em montanhismo? O que as autoridades soviéticas pretendiam esconder? E se esse for o caso, o que o grupo de resgate encontrou na paisagem desolada dos Montes Urais? O mistério permanece e um sem número de soluções foram sugeridas nos anos que se seguiram, envolvendo desde tribos hostis a monstros do folclore russo, passando por alienígenas e testes secretos com tecnologia experimental.


“Se eu tivesse a chance de perguntar qualquer coisa a Deus, seria a respeito desse terrível evento. O que aconteceu com os meus amigos naquela noite ainda me atormenta”.Disse Yuri Yudin, o décimo membro da trágica expedição e único sobrevivente. Yudin não acompanhou seus colegas nos últimos dias de viagem, ele não se sentia bem – vítima de um resfriado decidiu retornar antes da noite fatídica. A morte de seus amigos permanece como um doloroso mistério que ele ainda tenta solucionar pessoalmente.

A EXPEDIÇÃO

Yudin e seus nove companheiros iniciaram sua viagem no dia 23 de janeiro de 1959, seu destino as Montanhas na face norte dos Urais. Ele e outros oito eram alunos do Instituto Politécnico do Ural em Ekaterinburg, localizado na região de Sverdlovsk , a quase 2000 quilômetros de a leste de Moscou.

Naquela época a cidade ainda era chamada de Sverdlovsk, e era lembrada como o local onde o Tsar Nicolau e a família imperial havia sido brutalmente assassinados pelos revolucionários soviéticos. Em 1959, a União Soviética estava em meio a algumas mudanças sociais depois de décadas de repressão pelo Regime Stalinista, e sob o comando do novo premier Nikita Khrushev, as pessoas experimentavam um pouco mais de liberdade. O final dos anos 50 foi marcado pela explosão dos esportes de turismo na Rússia a medida que o país ainda tentava deixar para traz o período de austeridade do pós-guerra. Esquiar, percorrer trilhas e acampar eram passatempos comuns entre os jovens, uma forma de escapar ainda que momentaneamente da estrutura repressiva do dia a dia, retornar à natureza na companhia de amigos e se afastar dos olhos sempre vigilantes do estado. Tais atividades eram comuns entre estudantes, que se aventuravam em regiões isoladas e selvagens do interior da União Soviética.

O grupo de alunos do Instituto Politécnico dos Urais era composto por jovens com experiência em meio a vida selvagem. Eles faziam parte de um Clube de Turismo Esportivo, e eram liderados por Igor Dyatlov de 23 anos, respeitado pelo seu conhecimento em sobrevivência na neve e sua habilidade como esquiador e montanhista.

Não era a sua primeira expedição e o grupo confiava em seu julgamento. O caminho escolhido pelo grupo até Otorten era perigoso, uma rota categorizada como nível 3 – perigo de deslizamento e um terreno traiçoeiro a uma altitude de 1100 metros. Mas a experiência dos alunos demonstrava que nenhum deles estava intimidado diante do desafio. Na verdade, as fotos que eles tiraram durante o percurso demonstram que todos estavam se divertindo e pareciam tranqüilos no decorrer do trajeto.

Além de Dyatlov e Yudin, o grupo era composto por Georgy Krivonischenko (24), Yury Doroshenko (24), Zina Kolmogorova (22), Rustem Slobodin (23), Nicolas Thibeaux-Brignollel (24), Ludmila Dubinina (21), Alexander Kolevatov (25) e Alexander Zolotaryov (37). Todos eram alunos de cursos do Instituto, exceto Zolotaryov o mais velho do grupo, que segundo algumas fontes era apenas um conhecido de Dyatlov. Ele se mostrou um pouco relutante em aceitá-lo na expedição, mas Zolotaryov era um montanhista bastante capaz e fora recomendado por alguns amigos do próprio Dyatlov.

Então, em 23 de janeiro o grupo de 10 indivíduos partiu rumo a uma viagem de três semanas nas montanhas. Eles seguiram de trem até Ivdel, chegando a esse destino no dia 25, e de lá fretaram passagens em caminhões até Vizhai – o último vilarejo habitado antes da imensidão coberta de neve que se estendia até Otorten. Eles deixaram o povoado no dia 27 e começaram a marchar através da paisagem branca. No dia 28, Yudin começou a apresentar febre e resolveu retornar a Vizhai como precaução. O grupo confiando que a trilha ainda estava fresca e que o dia estava limpo decidiu deixar seu colega voltar sozinho. A expedição agora composta de 9 pessoas, levantou acampamento e se despediu de Yudin combinando reencontrá-lo alguns dias depois.Foi a última vez que alguém os viu com vida. Os eventos que se seguiram a partida de Yudin só podem ser reconstruídos através dos diários e fotografias recuperadas na área onde o grupo ergueu seu último acampamento.

Tendo deixado Yudin, a expedição esquiou através de uma encosta na direção de lagos congelados, seguindo antigas trilhas usadas pela tribo Mansi, habitantes da região, por cerca de quatro dias. Em 31 de janeiro, eles chegaram a embocadura do Rio Auspia, onde montaram acampamento em terreno elevado. O grupo deixou parte de seu equipamento e provisões nessa base para explorar a região. Desse ponto, iniciaram a escalada do Otorten em primeiro de fevereiro.


Por alguma razão, provavelmente tempo adverso – eles acabaram desviando sua rota original e seguiram para uma região menos desafiadora conhecida comoKholat Syakhl a uma altitude abaixo de 1,100m. Por volta das cinco da tarde, o grupo decidiu que era mais seguro montar acampamento para passar a noite. Fotografias tiradas durante essa tarefa mostram que todos estavam bem e pareciam animados. O grupo poderia ter tentado retornar a sua base onde teriam uma proteção mais eficiente contra os rigores do tempo, mas devem ter preferido descansar e aguardar uma mudança no dia seguinte.

As últimas anotações no diário dos exploradores evidenciam que eles estavam de bom humor e tudo corria dentro do esperado. Não havia sinal de desentendimentos ou disputas internas, na verdade a viagem transcorria sem qualquer imprevisto.

A BUSCA
O plano original do grupo era retornar a Vizhai por volta do dia 12 de fevereiro, de onde Dyatlov mandaria um telegrama ao Clube de Esportes do Instituto avisando que todos haviam chegado em segurança. Ninguém se preocupou quando o telegrama não foi enviado na data estipulada – final de contas, todos eram veteranos de escaladas dessa natureza. Apenas em 20 de fevereiro, parentes preocupados com a falta de notícias resolveram entrar em contato com as autoridades em busca de informações. O Clube reuniu um grupo de voluntários, entre os quais professores e estudantes do Instituto, acompanhados de policiais e então do exército, despachados em helicópteros e aeroplanos.
O grupo de resgate localizou o acampamento dia 26 de fevereiro. “Encontramos o lugar abandonado. Uma das tendas ainda estava de pé, mas coberta com neve. Ela estava vazia, mas todos os objetos pertencentes a expedição haviam sido deixados para trás” relatou Mikhail Sharavin, o estudante que encontrou o acampamento durante as buscas. A tenda estava rasgada de dentro para fora, com um rasgo de faca na lona, largo bastante par um homem adulto passar por ele. Pegadas podiam ser vistas no chão coberto por pelo menos um metro de neve, havia marcas deixadas por pés calçando meias, botas e de um único pé descalço (o que não faz sentido em um ambiente congelante!).

Embora não se tenha definido a quem pertenciam as pegadas, supõe-se que não haviam marcas deixadas por pessoas de fora do grupo. Tampouco havia qualquer sinal de luta. Os esquis foram deixados de lado, assim como os sapatos de neve. Seria impensável que veteranos se afastassem do acampamento sem vestir esses equipamentos básicos.

As pegadas levaram o grupo de resgate até a floresta, mas os rastros sumiam depois de 500 metros. Delimitando a área de busca, as equipes concetraram seus esforços nesse perímetro. A cerca de 1,5 Km da tenda encontraram dois corpos que pertenciam a Georgy Krivonischenko e Yury Doroshenko, descalços e vestindo roupas de dormir, eles se encontravam nos limites da floresta, sob um grande pinheiro. Suas mãos apresentavam queimaduras, e havia restos de uma fogueira ali perto. Os galhos mais baixos do pinheiro estavam quebrados até uma altura de 5 metros, sugerindo que os dois tentaram escalar para observar os arredores ou se proteger.


Trezentos metros adiante encontraram o corpo de Dyatlov, caído de costas na neve com a face encarando o céu e um galho de árvore preso em seus dedos. Mais 180 metros em frente acharam Rustem Slobodin, e a 150 metros dele estava Zina Kolmogorova; ambos pareciam ter se arrastado em um esforço final até perderem as forças e desmaiar na neve.
Os médicos atestaram que todos os cinco morreram de hipotermia. Apenas Slobodin possuía ferimentos além das queimaduras nas mãos, ele havia sofrido um golpe na cabeça, embora essa não tenha sido a causa direta da sua morte.
Levou mais dois meses até o paradeiro dos quatro membros restantes da expedição ser descoberto. Os corpos haviam sido enterrados em uma ravina a quatro metros de profundidade em uma área que ficava a 75 metros do pinheiro. Nicolas Thibeaux-Brignollel, Ludmila Dubinina, Alexander Kolevatov e Alexander Zolotaryov haviam sofrido mortes violentas. Thibeaux-Brignollel tivera o crânio fraturado por um objeto pesado, Dubunina e Zolotarev tinham vários ferimentos e costelas quebradas. Dubinina havia tido a lingua arrancada. Os corpos estavam amontoados na mesma cova como se tivessem sido atirados ali dentro e cobertos imediatamente.


De acordo com o escritor Igor Sobolyov, que investigou o incidente, alguns dos mortos estavam usando roupas que não lhes pertenciam como se tivessem removido os trajes dos seus companheiros para assim se manter aquecidos. Zolotaryov estava vestindo o chapéu e casaco que pertencia a Dubinina, enquanto os pés de Dubinina estavam envoltos em tiras rasgadas das calças que pertenciam a Krivonishenko. Thibeaux-Brignolle tinha dois relógios no braço esquerdo – um deles marcava 8.14am, e o outro 8.39am.

A despeito das muitas perguntas que essa descoberta levantou, as investigações foram concluídas no final do mês e os arquivos foram selados e mantidos em um arquivo secreto. Ainda mais estranho, esquiadores e curiosos foram impedidos pelas autoridades de transitar pela região pelos três anos seguintes.

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